Doações ocultas dominam contas de candidatos na Câmara e Senado

Fonte: Valor Econômico (21.jan.2013) | Autor: Caio Junqueira | Foto: Valter Campanato Alves/ABr

Os candidatos favoritos para ocupar a presidência da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), e ao Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fizeram em 2010 as campanhas mais caras dentre todos os que estarão na disputa em fevereiro.

Alves arrecadou R$ 3,36 milhões para ser o terceiro mais votado em seu Estado há dois anos. Calheiros angariou R$ 5,4 milhões para ficar com a segunda vaga ao Senado em Alagoas. Em relação ao tamanho do eleitorado nos colégios em que disputaram, cada um investiu, respectivamente, R$ 1,49 e R$ 2,65 por eleitor.

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No caso de Alves, esse valor chega a ser 14 vezes maior do que o investido por um dos seus adversários, Júlio Delgado (PSB-MG), que gastou R$ 1,67 milhão, o que dá R$ 0,11 por eleitor mineiro. Ronaldo Fonseca (PR-DF) gastou R$ 1,3 milhão (R$ 0,70 por eleitor do Distrito Federal) e Rose de Freitas (PMDB-ES) R$ 935,9 mil (R$ 0,37 por eleitor capixaba). No Senado, essa discrepância foi menor. Pedro Taques (PDT-MT) arrecadou R$ 1,12 milhão, ou R$ 0,53 por eleitor - cinco vezes menos que Renan - e Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) R$ 189,6 mil, correspondente a R$ 0,45 por eleitor.

As prestações de contas dos candidatos chamam a atenção ainda por outros dois motivos. À exceção de Randolfe, todos usaram o expediente das chamadas "doações ocultas", mecanismo pelo qual os financiadores transferem recursos aos partidos e comitês de campanha tornando difícil sua identificação. O expediente é cada vez mais utilizado no país. Em decorrência disso, a análise das prestações é prejudicada, já que nem todas as empresas constam explicitamente das prestações de contas entregues à Justiça Eleitoral.

Dos R$ 3,36 milhões arrecadados por Henrique Eduardo Alves, o favorito para a eleição da Câmara, R$ 2,52 milhões foram por esse artifício, mais de 75% do total. O índice de sua correligionária Rose de Freitas chega a ser maior: 80% de doações ocultas. Delgado teve 44,4% e Fonseca 30,7%. Mas o recorde está no Senado e é do favorito. Renan tem 97,2% de doações ocultas. Taques teve 12,2%.

Em razão disso, não é possível identificar, por exemplo, de onde provém duas doações feitas a Alves nos valores de R$ 500 mil nos dias 24 e 28 de setembro de 2010. Ou, na mesma linha, as remessas de R$ 600 mil, R$ 598 mil, R$ 400 mil e R$ 300 mil presentes na prestação de contas de Renan. Tratam-se das maiores doações dentre todos os candidatos a Câmara e ao Senado.

As menores, por outro lado, estão presentes na de Randolfe. O senador amapaense teve apenas três doações de pessoas jurídicas de pequeno porte, um laticínio, uma empresa de outdoors e uma agência de propaganda. Somadas, suas doações não chegam a 18% do total, majoritariamente formada por doações de pessoas físicas.

Mesmo com a limitação das doações ocultas, é possível constatar que praticamente todos os principais setores da economia do país colaboraram com a campanha que elegeu os deputados e senadores que em fevereiro tentam os principais cargos do Congresso Nacional. No rol, constam empresas líderes em seus segmentos, como o frigorífico JBS, o banco Itau Unibanco, a metalúrgica Gerdau e a construtora Mendes Júnior.